A atual tricampeã mundial de ultramaratonas, Dani Genovesi, conversou com a gente para falar sobre longevidade com alta performance e ciclismo de longa distância. Vencedora da Race Across America em 2009, e do circuito mundial em 2011, 2015 e 2017, ela explicou como funcionam os treinamentos, a rivalidade entre atletas e a psicologia esportiva na modalidade.

OCE: Qual você considera a maior evolução tecnológica desde que você começou no ciclismo?

DANI GENOVESI: Eu comecei a usar o medidor de potência em 2010, logo depois que eu voltei do RAAM e passei a treinar na OCE, com o Hugo (Prado Neto). O medidor otimiza o treino, é capaz de colher muita informação, que é importante para você não passar do fio. A maior evolução foi essa: otimizar o treino. Você treina menos e rende mais. Esse é o pulo do gato no treinamento de longa distância. É importante ara você não chegar estourada de treino para as provas, sem nem aguentar olhar para a bicicleta.

Eu diria que, com certeza, a qualidade do treino é muito mais importante que o volume em si.

É uma ferramenta super importante para evitar lesões, baixa imunidade, não só na parte psicológica. A pior coisa que pode acontecer para um atleta de ultras é chegar na largada estafada. Sem o medidor, você chega em um limite e não progride mais. Além disso, é mais palpável de você visualizar sua evolução.

OCE: A psicologia esportiva é crucial em provas de ultradistância?

Dani: Sabe que para mim, o fator mental é mais importante em provas curtas, como a do cross country? Porquê são modalidades em que uma pequena falta de atenção de segundos te custa a prova inteira. Quando eu era mais nova, fazia provas curtas, participava de cross-country, eu trabalhava muito mais a minha parte psicolóogica do que hoje em dia que eu corro ultras. Não sei se é porquê quando eu entrei na ultra, eu já trouxe essa bagagem esportiva toda.

Eu comecei a fazer ultra com trinta e poucos anos. Participei de um Ecomotion e outras corridas de aventura. Depois, no ciclismo, só entrei mais ou menos em 2006. Então, eu já estava amadurecida. Por isso, nunca precisei fazer, no ciclismo, um trabalho psicológico específico muito intenso, com eu fiz com esportes onde você decide mais rápido. Eu chegava a ter febre de nervoso. Aquela adrenalina antes, toda aquela pressão atrapalha muito.

Na ultra, lógico que existem esses momentos, mas eu tenho mais tempo para pensar, porque a intensidade é mais baixa, você tem outros tipos de perrengues. Não é aquele cross-country louco que você tem que resolver aquilo ali, naquele segundo. Eu vejo a preparação psicológica como um fator importante para qualquer fase de qualquer atleta, independente da modalidade. Mas, principalmente na fase de maturação.

OCE: Você faz alguma atividade paralela para complementar os treinos de ciclismo?

Dani: Faço yoga há muitos anos. Ela otimiza a minha recuperação de um treino para o outro. Por exemplo, se eu treino forte na segunda-feira, e faço yoga na terça, chega na quarta eu estou bem para treinar forte de novo. Quando eu não faço, sinto que fica mais difícil. É um trabalho de respiração, de relaxamento. quando você consegue relaxar, a recuperação fica bem melhor.

OCE: Porque você acredita que existam menos jovens no circuito de ultras em comparação com outras modalidades?

Dani: Realmente, você quase não vê pessoas na faixa dos 20 anos em competições de ultra. Eu acho que isso acontece pela característica dos jovens. De ter explosão, da ansiedade, de querer resolver as coisas rapidamente. Nas maratonas de mountain bike e nos gran fondos de ciclismo, você ainda vê, mas em ultra, é muito difícil. Contanto que a categoria open da UMCA vai de 18 aos 49 anos, e fora da UMCA, isso vai até os 60.

Nas competições, percebo que o auge ocorre perto dos 40 anos, até os 45 para os homens, e um pouco mais para as mulheres. Após os 55 é que a performance começa a cair um pouco e você começa a mudar de categoria. O que eu percebo também é que existe pouca renovação, sobretudo nas mulheres.

OCE: Como você avalia a rivalidade entre atletas no circuito de ultras?

Dani: A mentalidade é muito diferente. Claro que tem pessoas que eu penso “essa aí, para eu ganhar um dia em uma prova de 24h vai ser osso”, mas não tem aquela rivalidade tão acirrada. Isso acontece por que são provas de sobrevivência. É você contra você mesmo.

Mas isso é um fator que eu estou tentando trabalhar. Por exemplo, em provas menores de 24h, em que você não dorme. Depois de 10h, você diminui o ritmo e tenta não parar. Nesses casos é bom você economizar energia e pensar nas concorrentes. Porquê no final, o ritmo costuma dar uma apertada. As meninas estão em níveis muito próximos. Então eu estou tentando trabalhar isso, economizar energia para as duas ou três horas finais.

OCE: Você faz treinos específicos para isso?

Dani: Eu acredito que não tenha muita diferença para os treinos dos atletas que correm maratonas. Eu vejo muito ciclista que tem um volume muito maior que o meu e nem compete em ultras. Eu treino entre 10 e, no máximo, 16 horas por semana. Tudo depende de como você vai fazer essas horas de treino. Existem “n” formas de fazer um abdominal, você pode fazer 100 de qualquer jeito ou 10 bem feitinhos.

Como nós conversamos no início, o medidor de potência é essencial para otimizar esses treinos. Isso que me deu longa vida no esporte. Vou fazer 50 anos em fevereiro, poderia estar estourada hoje em dia. Além disso, as próprias competições, fazem parte dos treinos. Em uma prova eu chego a pedalar volumes equivalentes a semanas de treinos.